“Todo ser em movimento é perigoso.
Todo ser que se transforma, incomoda”.
Paulo Leminski
Quem duvida que trabalhar com criatividade dá apetite? Tem mais é que tomar cuidado porque, se vacilar, vem uma vontade grande de engolir o mundo e o que mais vier pela frente.
Ultimamente, tenho tido muito prazer em trabalhar com grupos de reflexão, onde posso sentir a força do coletivo, os diferentes olhares que se complementam, formando algo novo, inesperado. O susto gostoso de ser surpreendida por uma nova descoberta elaborada coletivamente; o corpo que fica alerta e aumenta a pulsação, avisando o quanto se está vivo. Leveza que só nos acomete quando nos livramos do peso do dever ser para, efetivamente, sermos surpreendidos pelo tanto que podemos ser. E isso só pode ser feito com criatividade.
Fevereiro, mês de festa popular, onde o coletivo pulsa e é sentido nas ruas e nos corações. Poder vestir personagens, experimentar outros papéis e escutar apenas os desejos de felicidade. Haja potência criativa!
Mas março vem aí e fico pensando porque, ao longo do ano, vamos diminuindo as doses de criatividade e seguimos fazendo um esforço demasiado para encaixar a vida, em um tempo linear, cronológico, repleto de começos, meios e fins, de modelos pré-definidos, quando os sentimentos e sensações acontecem em outro tempo, não linear, nas vivências e experiências que nos atravessam a todo momento? Instantaneamente, me vem a imagem de uma pessoa tentando andar em linha reta, na hora do rush, na Avenida Paulista…
Voltando para o grupo, lá o movimento é libertado, flui e ganha diferentes formas. À partir dessas vivências, não dá para negar que a vida é feita de encontros; mas, na tentativa de dar uma forma para ela, vivemos alternando as nossas experiências entre o tanto e o tão pouco e perdemos o essencial que é a troca energética: eu e uma nova idéia, eu e o outro, eu e os meus próprios sentimentos…
Covardia, medo de errar? Pois é, em uma vida linear, os caminhos não têm retorno. Outro dia ouvi de um paciente com diagnóstico de atraso cognitivo que, “para navegar pelas profundezas, não são necessárias fronteiras nem leis. Mas é uma tarefa para os rebeldes”. Quanta lucidez… É preciso mesmo nos rebelar para ousar desenhar novos caminhos, menos cartesianos para, enfim, podermos ser dignos do que nos acontece. Se os caminhos têm ou não retorno, pouco importa…
Isabella Quadros
































































