À nossa casa!

“A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar”
Arnaldo Antunes

Início de ano, volta das férias é sempre um chamado pra introspecção. Fecho pra balanço e o mergulho no sensorial é ainda mais profundo. Vem uma vontade de fazer diferente ou de ampliar os caminhos que já estão sendo trilhados. Frio na barriga e sensação de liberdade caminhando lado a lado.

A vida em São Paulo não foi uma escolha, mas uma contingência do destino há 20 anos atrás. Passei boa parte desse tempo justificando os desacertos baseada nessa teoria da “não escolha”. E, sendo bem sincera, foi um argumento que me serviu durante muito tempo porque me isentava das consequências dos meus atos, me isentava das escolhas que teimava em não assumir.

Um dia, conversando com uma professora e amiga (antropóloga de formação e bruxa, das melhores, de coração), lamentava não saber mais de onde eu era: Voltava pra Bahia e conhecia pessoas que me perguntavam de que lugar eu era porque não achavam que eu era de lá ou porque queria fazer programas que os turistas fazem(dar uma volta de lancha na Baía de Todos os Santos, comer carne de sol no Largo de Santo Antônio, um sorvete na Ribeira…) e que não é rotina pra quem vive por lá; quando, ao mesmo tempo, aqui em São Paulo, me perguntam a todo momento de que lugar do Nordeste eu sou – o que, no mínimo, o sotaque não me deixa negar. Contava então pra ela que estava angustiada, que era uma sensação que sempre tive medo de sentir, que mexia com a minha identidade e que estava alí na minha frente, estampada, sem possibilidades de disfarce.

Ela ouviu todo o meu relato e falou que não conseguia entender porque eu estava tão angustiada; afinal, identidade era algo que remete ao idêntico, ao mesmo, ao que não muda e que o grande lance da vida era a subjetividade: Não sou mais da Bahia, de São Paulo e nem de lugar nenhum. Todos esses lugares vivem em mim, pulsam e me tornam o que sou!

Essa semana, voltando da Bahia, o avião ainda decolava e pude ver a casa dos meus pais lá embaixo, parecia de brinquedo da altura em que já estava, contornos perfeitos… e o mar que ficava pra trás e que me faz tanta falta. O coração apertou (há vinte anos que o danado aperta todas as vezes que venho embora), a visão embaçou e instantaneamente lembrei desse diálogo. Bacana saber que se tem um lugar pra voltar todas as vezes que a chuva encharca nosso ninho, mas que não é o único. Tenho lugar nos meus filhos, nos meus amigos, na vida que construí por aqui e no que acredito como essencial, que significa a minha vida e que levo por onde vou.

Hoje almocei com uma amiga que não vejo muito, talvez porque seja daquelas amizades preciosas que a gente acaba cultivando `a distância com medo de tornar trivial, e sentí que aquele momento estava totalmente no meu lugar, me sentí plenamente pertencente `aquele contexto.

O avião decolou no pôr do sol… Maravilha de nuances que a vida, assim como a natureza, nos proporciona. E o melhor mesmo é quando nos livramos da miopia e conseguimos enxergar!

Isabella Quadros

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2 respostas a À nossa casa!

  1. Roseana disse:

    Muito bom!!! Muito bom mesmo!
    Quando leio Lispecto sempre tenho a sensação de estar me lendo. Ela escreve muito de mim. Agora lendo o seu texto e dona dessa sensação de não ser de lugar nenhum e ser todo o mundo….de novo senti a voz do outro falando por mim.

    Beijo enorme

  2. Bárbara Quadros disse:

    Bella: voce está se superando a cada texto. Estou aguardando ansiosamente o seu livro, minha Martha Medeiros.
    Afinal de contas, voce faz parte de mim e fico orgulhosíssima e proclamo aos quatro ventos: THIS IS MY GIRL !!!!!

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